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   ano  segundo |   número    trinta e cinco  | quinzenário   director   henrique prior |   director-adjunto   manuel oliveira |  30.Julho.2003
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Possidónias  Reformas
Luís Moutinho da Silva

 

Vencer a batalha da qualidade em detrimento da quantidade foi a máxima adoptada pelo discurso do Ministério da Ciência e do ensino Superior (MCES). Contudo, é demonstrável que Lynce fala de qualidade mas não é a qualidade que tem em mente.

 

As reformas anunciadas para o ensino superior caracterizam-se por fornecer à tutela as ferramentas necessárias para provocar a implosão do sistema. Pode mesmo afirmar-se que as reformas anunciadas visam apenas emagrecer o sistema, a qualquer custo e admitindo todos os outros objectivos como secundários.

 

O grande problema do sistema de Ensino Superior (ES) público português é o seu tradicional sub-financiamento. Esse problema não pode ser atribuído à gestão que as instituições têm feito, dado que nestas não se identificam derrapagens mas antes saldos positivos – como o MCES acusou no parlamento, como se a gestão cuidada fosse em si um defeito – mas antes à baixa dotação proveniente do Orçamento de Estado, muito inferior à média europeia. Mesmo países como a Irlanda, frequente sujeito de comparação com Portugal, investem mais no seu sistema de Ensino Superior e mantêm uma taxa de crescimento maior do que a portuguesa.

Nesse contexto, e para um país que pretende obter uma recuperação, o que torna imperioso investir em infra-estruturas mas essencialmente em formação de recursos humanos, o corte orçamental que caracteriza a orientação matriz deste ministério é a todos os títulos questionável.

E pela mesma ordem de razões, o corte de vagas de acesso ao Ensino Superior é totalmente intolerável. Não só não contribui para a melhoria da competitividade nacional, pois gerará menos licenciados quando precisamos de aumentar o seu número, como contribui ainda para a redução da qualidade do sistema. A redução de vagas não afecta o financiamento das escolas que não conseguiam a priori preencher as suas vagas mas reduz directamente o orçamento das escolas que pela sua qualidade e interesse mantinham taxas de candidatos por vaga elevadas.  

 

E aí reside a maior falha, as reformas até aqui anunciadas surgem antes de uma avaliação séria do sistema e das suas instituições, antecipando cortes orçamentais, sejam directos ou através da redução de vagas, como penalidade para pretensos defeitos que não foram diagnosticados e que o MCES nada fez para ajudar a resolver.

Provavelmente porque o MCES não tem um rumo para o ES. Basta atentar à Lei do Financiamento onde se prevê uma fórmula de acordo com critérios que ninguém conhecerá antes da definição anual pelo próprio Ministro…

 

Apesar do desnorte e da indefinição há uma tendência na actuação da tutela e essa tendência é implícita no ataque cerrado que se tem feito à autonomia universitária, com os argumentos falaciosos da gestão (como se no ES existissem as constantes derrapagens dos outros sectores da vida pública), da qualidade (que ninguém define) e da adequação ao mercado de trabalho (como se a adequação do candidato ao ES fosse melhor do que a adequação do licenciado). Essa tendência é ainda óbvia na crítica aos modelos de participação democrática de todos os elementos das Instituições, anunciando-se a abertura de campo à participação de entidades e interesses privados nas fundamentais estruturas públicas que são as instituições deste tipo.

 

A mercantilização do ES será consequência dessa abertura às “forças vivas” do meio económico e já começa a ser preparada: a) pela continuada recusa em legislar para resolver os problemas laborais dos agentes (docentes e não docentes) do ES, com um muito desconfortável atraso no início das negociações de alterações pontuais aos Estatutos de Carreira, b) pela definição de objectivos pouco ambiciosos para a qualificação do corpo docente, ao estabelecer o grau de Mestre como qualificação de entrada na Carreira Docente do Ensino Politécnico, o que afasta a possibilidade de convergência qualitativa pela positiva entre os docentes dos dois sub-sistemas (Universitário e Politécnico) e que será a curto prazo uma fasquia anacrónica, c) pela ausência de incentivos à criação de equipas (corpos docente e de investigadores) estáveis e à respectiva qualificação crescente, mantendo-se a progressão profissional ligada à abertura de vagas em vez de estar associada à qualificação científica e pedagógica do docente, mantendo-se os constrangimentos numa carreira demasiado hierarquizada e sem perspectivas de superação individual, mantendo-se os empecilhos à mobilidade entre carreiras docentes e de investigação.

 

Lynce fala de qualidade, o que é em si positivo, mas condena-a com tal possidónia política.

Professor Universitário

 

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